Título: Judith e a Cabeça de Holofemes
Autor: Gustav Klimt
Ano: 1901
Movimento: Simbolismo
Técnica: Óleo sobre Tela
Localização: Austrian Gallery Belvedere (Viena)
Título: Judith e a Cabeça de Holofemes
Autor: Gustav Klimt
Ano: 1901
Movimento: Simbolismo
Técnica: Óleo sobre Tela
Localização: Austrian Gallery Belvedere (Viena)
No “Dica de Leitura” de hoje, não vou indicar um livro em especial, mas sim, um escritor: Lourenço Mutarelli, o escritor, roteirista, artista gráfico e ator, que estará na Feira do Livro de Jaraguá do Sul deste ano.
Além dos nomes pop que a Feira do Livro traz para Jaraguá do Sul, acabam passando – meio que despercebidos – nomes de grande calibre no meio literário. Foi assim com Cristovão Tezza, que esteve na cidade antes de arrematar prêmios literários com seu “Filho Eterno” ou Marçal Aquino, antes de participar como roteirista de “Força Tarefa”.
Enfim… Lourenço Muratelli é o cara que escreveu “O Cheiro do Ralo”, livro que deu origem ao filme homônimo, estrelado por Selton Mello e Alice Braga, roteirizado por Marçal Aquino e Dirigido por Heitor Dhalia (inclusive, o filme já foi exibido numa das edições da Feira do Livro).
“O cheiro do ralo” conta a história do dono de uma loja de penhores, que vive incomodado pelo fedor do ralo que existe em sua loja. Lourenço (o personagem) tenta tirar o máximo de vantagem dos clientes, que sempre estão em condições financeiras nada favoráveis. No desenvolver da história, o pivô acaba se vendo confrontado por pessoas (seus clientes) que ele julgava controlar.
O leitor jaraguaense encontrará na Grafipel “O cheiro do ralo”, “A arte de produzir efeitos sem causa” e “Miguel e os demônios”, todos pela Cia das Letras, com capas personalizadas, como partes de uma coleção de Lourenço de Mutarelli. Além de “Quando meu pai encontrou o ET fazia um dia quente” escrito e ilustrado por ele e… e… e… “O natimorto – um musical silencioso”
“O natimorto” é a história de um homem que, em sua crise existencial, interpreta as fotografias das campanhas antitabagismo dos versos das carteiras de cigarros como se fossem cartas de tarô. O personagem vê uma oportunidade de dar um novo rumo para sua vida quando encontra uma cantora que, por ter uma voz tão pura, ninguém escuta. Ele começa um relacionamento entremeado de carinhos e incertezas com a cantora.
“O natimorto” foi publicado originalmente em 2004 e relançado pela Cia das Letras em 2007, naquele mesmo formato citado acima. Foi adaptado para o teatro e acabou cristalizado no cinema através da ótica de Paulo Machline. No elenco, você se deparará com Simone Spoladore e com o próprio Mutarelli.
Aproveite esses dez dias que antecedem a Feira do Livro de Jaraguá do Sul e conheça/leia um pouco mais de Lourenço Mutarelli.
Acesse aqui um trechinho de Natimorto no site da Cia das Letras.
Um dos dez mandamentos (que eu prefiro chamar de direitos) do leitor apresentados pelo Daniel Pennac no seu livro “como um romance” é o de abandonar um livro sem tê-lo lido na íntegra (sim, porque livros também podem ser abandonados mesmo depois de lidos totalmente). E se antes eu sentia uma dor em abandonar algum livro, de uns anos pra cá eu faço isso com a maior facilidade. Antes mesmo de ter feito a leitura dos mandamentos do Pennac. Ainda mais levando em conta a quantidade de livros diferentes nos quais entro (literatura como portas, não é, Enzo?, não como escadas) semanalmente, como leitor-professor, leitor-pesquisador e leitor-leitor que tento ser.
O último que abandonei foi “O homem duplicado”, do Saramago. Já são seis os livros lidos do português, e gostei do começo deste livro citado, mas o momento não me foi para tal leitura. Não me está sendo. Há meses. Ler Saramago exige muita concentração. Por dias. Histórias densas e inteligentes. Exigem do leitor. E gosto muito de livros assim. Mas sentir que o meu momento não é para tal livro é uma característica e tanto a se respeitar.
Abandonar livros é exercício prático do ato de ler. Ao menos deveria ser.
Fisicamente falando, seria como reorganizar os livros nas prateleiras em que estão. Tenho vivido algo assim há três meses, desde que me mudei para um apartamento, para enfim morar sozinho. Na casa da mãe, em meu quarto, para meus livros havia estantes suficientes. Cá no apê a coisa é mais apertada. Resolvi espalhá-los pela casa. Afinal, a casa minha (é uma coisa maravilhosa falar esta frase!). Há, no quarto, uma estante grande, onde está a maioria dos livros. Há, no miúdo corredor, um recuo de parede onde coube uma estante estreita para mais vários livros. E o resto, como fazer? Espalhei prateleiras pelas paredes. E coloquei alguns num criado-mudo improvisado ao lado da cama e outros em cima da mesa da cozinha. Na mesa se come, na mesa se lê.
Mexer em livros, para mim, é mergulhar dentro do que sou e de como me construo, e por lá me perder. Tenho-me sido novo. Essas mudanças são reflexo disso.
Gosto de olhar para meus livros. Gosto de senti-los pelo tato. Gosto de folheá-los e de relembrar o exato momento em que foram lidos ou comprados, sendo que de alguns ainda não conheço seus interiores, seus poros de vida, os espaços entre palavras – e as próprias palavras – que os fazem ser o que são, para as quais construo os significados que me tornam quem sou.
Costumo dar aos livros, em meus escritos e falas, tratamento de como se tivessem personalidades e vidas próprias, pois acredito muito em que eles tenham, sim, suas vidas próprias, suas personalidades que os caracterizam como livros (sem contar as especificidades de gênero às quais eles dão vida e das quais recebem vida). Mais vivos ainda eles se tornam quando em contato com os olhos, a boca, os ouvidos, o tato, e todos os sentidos do ser humano, que a eles dão novos significados, que a partir deles forma-se enquanto ser humano e cidadão social, que sem eles e seus registros (ficcionais ou não) eu, por exemplo, não existiria.
Como você agiria se sonhasse em ser um político de expressão nacional e, depois de eleito, surgisse um projeto de lei que viesse a lhe proporcionar muito retorno financeiro para seus negócios pessoais e, de quebra, ainda pudesse garantir apoio para a sua futura reeleição?
É partindo desse tipo de pressuposto (interesse particular), que a proposta do novo Código Florestal ou pior, “Código da Exploração Florestal”, foi aprovada no Senado, com alterações gravíssimas e impactantes.
É evidente que na redação final dessa norma, não foi observado o interesse público por parte dos fieis senadores, tampouco houve imparcialidade entre os interesses ruralistas e ambientalistas.
Agora resta a esperança de um veto substancial por parte da Presidência da República até 25 de Maio.
Mas é importante dar nome aos bois. Nesse cenário caótico de sobreposição de interesses particulares e financeiros, alguns senadores em especial, merecem ser citados: Kátia Abreu, Baliro Maggi (maior plantador de soja do país), Ivo Cassol e Paulo Piau Nogueira (relator do projeto).
Todos são senadores e empresários do agronegócio, mas, sobretudo, cegos peões das grandes corporações que pretendem o lucro a todo o custo, inclusive da biodiversidade, da qualidade de vida e do respeito ao meio ambiente.
Aliás, essa mesma bancada ruralista também tem combatido a proposta de emenda constitucional nº 438/2001, que prevê o confisco de propriedades rurais que se utilizam de mão-de-obra escrava, mas este não é o tema dessa crônica.
Lamentavelmente, caso o funesto Código não seja vetado, restará aos senadores em um futuro não muito distante, a possibilidade de dizer a seus netos ou bisnetos que contribuíram de forma direta para que o Brasil tenha terras nuas a perder de vista, mas não tenha toda a água de que precisa para irrigar os campos secos pelo sol e pela desertificação, bem como que ajudaram o Brasil a deixar de ser o país da biodiversidade, das matas preservadas e da riqueza natural.
Nossa espécie é mesmo arrogante. Achamos que somos proprietários da vida no planeta, que podemos eliminar indiscriminadamente toda e qualquer outra espécie que atravesse o nosso caminho (pois somos superiores e temos todo o direito) e que viveremos com recursos naturais ilimitados e eternos.
É, parece que somente depois que a última árvore tiver caído, o último rio tiver secado e o último peixe for pescado é que vamos realmente perceber que não podemos comer dinheiro.
Então, que pelo menos tenhamos a dignidade de não reclamar do futuro e das consequências de nossas ações irrefletidas, pois a natureza não será nossa algoz, aliás, nem precisa, pois continuamos a ser o nosso próprio lobo.

“Meu nome é Florbela” disse ela. “Humm, que interessante! E o que faz perdida aqui nessa viela?” perguntou o moço alto. “Vim procurar minha amiga Gabriela” parecia assustada. “O nome dela rima com seu nome não é?” “É. Isso mesmo senhor.” Ficou mais à vontade. “E o nome das duas rima com canela e…vejamos…também com cidadela que lembra Compostela. Isso para não falar de mortadela e de costela. Que legal. Gosta de seu nome menina bela?” “Sim, gosto muito”. Parafraseando o romance Cidade de Vidro, da incrível Trilogia de Nova York, de Paul Auster, onde o destaque para nomes ganha uma importância singular, o diálogo acima ressalta as características curiosas que um nome pode despertar numa leitura. O seu nome, o meu não foram escolhidos por acaso, nossos pais criaram associações, semânticas ou não, quando nascemos, para a escolha de como o mundo irá nos chamar por toda a vida. É quando se passa a ser personagem de si mesmo a partir do batismo e, assim, segue-se pela estrada da existência arrastando, de forma prazerosa ou não, a bagagem de ser a Maria, o João, o Pedro, a Andréia, a Denise, o Ricardo e por aí segue a lista. Nomear algo me coloca numa intrincada e angustiante teia de dúvida e me ative a isso há algum tempo atrás quando penetrei num labirinto de nomese comecei a pesquisar significados para personagens de um romance que estou escrevendo. Tinha de ser forte o bastante para impregnar a ponto de torná-los inseparáveis de seus donos, digo, os nomes. Embora pudesse apagar e mudar as denominações na hora que desejasse, graças ao processador de texto, na prática, não funciona assim, pois à medida que a história vai acontecendo o personagem ganha vida e não se pode matá-lo a qualquer momento com a assassina tecla delete e simplesmente colocar outro no lugar para continuar sua história. Literatura a parte, pulemos para a vida real onde o papel dos pais na escolha do nome dos filhos é um elemento poderoso e só conseguimos “habitar” esse mundo cruel quando o dito cujo é sacramentado no papel num cartório. E, vamos combinar, talvez a vida possa se tornar complicada para alguém que se chama (acredite, existem pessoas com esses nomes) Pombinha Guerreira, Necrotério Pereira,Mijardina Pinto, Lança Perfume de Andrade, Faraó do Egito Souza, Bucetildes Cruz (chamada pela família de Dona Tide), Cantinho da Vila Sampaio. Ou se torne doce e encantada para Catherine, Vitória, Juliet, Gabriel, Lucas. A lista é grande e, caros leitores, aqui encerro dizendo que adoro e agradeço por me chamar Elyandria embora nunca tenha encontrado o significado.
Desde que casei, em outubro de 2010, venho frequentando bastante desses eventos: já fui a outros seis casamentos em menos de dois anos. E tenho mais três no horizonte, ainda sem data marcada, mas com pré-convites lançados.
Acredito que esse efeito dilúvio seja por causa da minha idade e ao fato de eu ter convidado muitas dessas pessoas para o meu casamento. È como se fosse um “qui pro co” da vida, em que cada fase dela segue seus rituais de passagem. Afinal, até os animais participam desse ciclo do crescimento, como a troca de pele nos répteis ou de esqueleto em insetos e aranhas – só que são bem menos conflituosos que os nossos.
Você ainda lembra quantos aniversários de criança foi ainda na infância? E festas de debutantes ou formaturas na adolescência? E clubes do vinho, da cerveja, do dominó, de moto, do cachorro… na idade madura?
No último casamento que fui, na sexta-feira passada, escutei o seguinte diálogo. Ele me fez acreditar que os homens são os mais castigados com esses tais cerimoniais de transição.
Amigo 1: – Também pensamos em casar, mas vai muito dinheiro.
Amigo 2: – Nem me fala. Vai mesmo, nós gastamos um carro zero quilômetro.
A1: – Pô cara, falando nisso, também tava vendo carro para trocar. Agora que terminei a faculdade e estou trabalhando em dois empregos, quero comprar o meu primeiro zero quilômetro.
A2: – Que massa. Mas é verdade né, cara… Antes da faculdade eu pensei: compro um carro zero ou pago os quatro anos do curso? Entrei na faculdade e adiei o carro. Aí depois fiquei noivo e pensei: dou entrada na casa ou compro um zero? Comprei o apartamento. Logo em seguida, marcamos a data do casamento e, de novo, o carro ficou em segundo plano. E agora, agora pode ser que dê certo…
A1: Isso se não vier filhos…
A2: Tem isso. Mas sabe, tem outro problema aí..
A1: Diga.
A2: Antes, lá no início da faculdade, me contentaria com um Uno zerinho. Agora, quero um Fit, City e por aí.
A1: Ah cara, mas hoje tu compra carro dando uma entrada pequena.
A2: Aí tu não compra o carro, tu compra o carnê.
A1: É, eu também não tenho coragem.
A2: O que interessa é chegar aos 30 anos com carro zero. Tenho um tempo até lá.
(Silêncio. Garçom passa)
A1 e A2: Garçom, traz um copo de uísque.
Num final de semana qualquer, no sofá, após assistir um DVD.
Ele: Bem legal o filme.
Ela: Também achei. Mesmo tendo umas cenas um pouco “forçadas”.
Ele: Normal. Por isso que é ficção.
Ela: É mesmo… Amor, se você pudesse ser um personagem de filme, qual você seria?
Ele: Como assim? Escolher um personagem?
Ela: É, se você fosse trocar de vida com um personagem de filme e viver no lugar dele, qual você escolheria.
Ele: Poxa, não sei… Que pergunta difícil… Tem tantos legais…
Ela: Não é difícil. Anda. Escolhe um…
Ele: O Thor!
Ela: O Thor? Por que ele?
Ele: Por que ele é um deus! Óbvio. E ele tem um martelo muito massa!
Ela: Nossa! Como você é egocêntrico! Escolher logo um deus. Eu já devia imaginar.
Ele: Credo… Não ficou feliz por ser casada com um deus?
Ela: Deixa pra lá…
Ele: E você? Qual escolheria?
Ela: É fácil. A Pepper Pots.
Ele: Que sem graça. Por que ela?
Ela: É mais do que óbvio, por que o Homem de Ferro faz tudo por ela e é apaixonado por ela. Fala sério, é o sonho de qualquer mulher! Ele é o herói preferido de todas as mulheres.
Ele: Então eu seria o Homem de Ferro!
Ela: Ah não! Não vem se meter no meu filme. Você é o Thor.
Ele: Pô! Obrigado pela consideração.
Ela: É só uma brincadeira. Não precisa ficar bravo.
Ele: Tá legal… E se fosse pra você escolher um personagem pra eu ser? Qual seria?
Ela: É fácil: O Smeagol, do Senhor dor Anéis.
Ele: Ah, porra! Fala sério. O Smeagol? Por que ele?
Ela: Ah, primeiro por que eu seria o seu anel, e você ia ter olhos só pra mim, e me chamar de preciosa o tempo inteiro.
Ele: E eu seria feio pra caramba!
Ela: Sim. Aí nenhuma mulher ia olhar pra você. Só eu!
Ele: Não gostei! Porra. O Smeagol!
Ela: Ai, não fica assim.
Ele: Eu vou tomar um banho. Porra! O Smeagol! Feio pra cacete!
Ela: Não fica chateado. Eu deixo você ser o meu Homem de Ferro.
Ele: Depois de me chamar de Smeagol, Homem de Ferro só se eu tomar Viagra.
Ela: Que homem sentimental que eu fui arranjar!
…
Título: Retrato de um cleptomaníaco
Autor: Théodore Géricault
Técnica: Óleo sobre tela
Ano: 1822
Localização: Museu de Finas Artes – Bélgica
Não me abandone jamais
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das letras
Romance – 344 páginas
A dica de leitura de hoje pode soar um pouco estranha. Isso por que, não posso – não me permito – relevar muito sobre a obra em questão.
Ou seja, antes de eu falar qualquer coisa sobre ele, vou dizer as coisas que você NÃO deve fazer/saber:
1 – O livro foi adaptado para o cinema.
NÃO assista o filme antes de ler o livro.
2 – O livro tem dezenas (centenas?) (milhares?) de resenhas da história escrita e da história adaptada.
NÃO leia! A maioria delas, principalmente as do cinema revelam, em duas frases, coisas que o autor do livro escondeu, com muito talento, por mais de uma centena de páginas.
3 – Ao conversar com quem já leu o livro, diga que ainda não leu e peça para NÃO saber das surpresas da história antecipadamente.
Agora, as coisas que eu posso dizer:
A história é narrada pela personagem Kathy, uma moça com, aproximadamente 30 anos de idade, que está prestes a sair de sua função de “cuidadora” de doadores, que executou durante doze anos.
O livro, lançado originalmente em 2005, foi considerado pela Revista Time como o melhor livro da década.
E, para evitar falar demais e acabar mencionando o que não devo, vou transcrever a contracapa do livro, que apresenta o livro de uma boa maneira:
“Kathy vai dar uma guinada na vida: será ‘doadora’, depois de anos em clínicas como ‘cuidadora’. Em tom ingênuo, ela evoca Hailsham, o internato onde cresceu, no interior da Inglaterra. Mas o leitor logo percebe as fissuras na aura idílica das suas memórias. Por que, com tanta perfeição, em Hailsham se respira medo? Por que o isolamento? Por que os alunos são especiais? Um universo familiar e desconhecido, em que o cotidiano é regido pela frustação. Ao descobrir a chave de seu destino, Kathy já não tem forças para mudá-lo.”
Minha impressão pessoal: O livro é foda!
Diz a gramática que o verbo “amar” é transitivo direto, ou seja, não exige uma preposição após o seu uso. Quando ama-se, ama-se alguém. (E depois odeia-se, mas tá). Então por que o título acima? Porque assim Mário de Andrade intitulou uma de suas obras de maior repercussão – junte-se a ela “Pauliceia Desvairada” e “Macunaíma”. Talvez porque quem ama, ama. E pronto. Desnecessárias são as explicações. Enfim.
Há, neste romance de Mário de Andrade, um narrador que propõe ao leitor, desde as primeiras páginas, uma liberdade de interpretação, um pacto que se mantém a partir do pressuposto de que, conforme afirma o crítico Alberto Manguel, em “Uma história da leitura”, “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”, algo observável neste trecho:
“Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura já existem 51 Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena, cada um tinha a Fräulein dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade com a moça, a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso. Outro mal apareceu: cada um criou Fräulein segundo a própria fantasia, e temos atualmente 51 heroínas pra um só idílio.
51, com a minha, que também vale. Vale, porém não tenho a mínima intenção de exigir dos leitores o abandono de suas Elzas e impor a minha como única de existência real. O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade, vamos cotejá-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 atuais janeiros dela”.
E assim o Narrador apresenta aos seus 50 leitores – que, sabemos, são tantos mais – a Fräulein, a personagem Elza, permitindo a cada leitor criar sua própria imagem e seu próprio conceito de quem ela é. Com este recurso, Mário de Andrade convida o leitor a imergir ainda mais em sua obra, chegando a um ponto de cumplicidade entre todos: autor, narrador, personagem e leitor.
Mais adiante no romance, há um outro trecho em que o autor conta como a personagem lhe surgiu: “Que mentira, meu Deus! dizerem Fräulein, personagem inventada por mim e por mim construído! não construí coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem invocasse, pois sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes”.
Ainda, “Amar, verbo intransitivo” é um romance que penetra fundo na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos, ao mesmo tempo em que trata, em várias passagens, dos sonhos e da adaptação dos imigrantes à agitada Paulicéia.
Em toda a sua obra, Mário de Andrade lutou por uma língua brasileira, que estivesse mais próxima do falar do povo, sendo comum iniciar frases com pronomes oblíquos e empregar as formas “si, quase, guspe” em vez de “se, quase, cuspe”, por exemplo. Os brasileirismos e o folclore tiveram máxima importância para o poeta e romancista, e, além disso, suas poesias, romances e contos revestem-se de uma nítida crítica social, tendo como alvo a alta burguesia e a aristocracia.
Empenhado em pesquisar os elementos mais característicos da identidade nacional, viajou pelo Brasil coletando exemplos de manifestações folclóricas e musicais na tentativa de compreender melhor a essência do país. Chegou a pensar na criação de uma “gramatiquinha da língua brasileira”, que incorporasse os falares regionais e seus neologismos sintáticos. Não o fez efetivamente, mas suas produções apresentam uma provocação linguística vista em poucos autores – principalmente situando no começo do século passado.
“Quando do aparecimento do livro, Manuel Bandeira justificou o aspecto mais chocante para a época: ‘A linguagem do romance está toda errada. Errada no sentido portuga da gramática que aprendemos em meninos. Do ponto de vista brasileiro, porém, ela é que está certa, a de todos os outros livros é que está errada. Mário se impõe à sistematização de nossos modismos’”. (Telê Porto Ancona Lopez)
Uma vez que é a língua uma realidade essencialmente variável – pelo simples fato de que é utilizada diariamente, e de que tudo o que é utilizado sofre alteração em sua estrutura primeira – podemos pressupor a inexistência de formas ou expressões intrinsecamente erradas. A ideia rasa de textos errados e textos corretos não é cabível como parâmetro (pelo menos, nem sempre), e sim um olhar de adequação – textos mais ou menos adequados, ou mesmo inadequados a determinadas situações. Um olhar linguístico sobre a língua portuguesa, atento ao uso efetivo dos seus falantes, e não aos manuais de gramática. Da teoria à prática, a distância provoca redemoinhos. Assim também no amor, esta impossibilidade transitiva.
Gaston Bachelard, em sua “Poética do Devaneio”, disse que “o mundo é constituído pelo conjunto de nossas admirações.”
Isto é, primeiro o homem admira aquilo que ele encontra, depois analisa, classifica e cria uma palavra indicativa do objeto, através do uso da razão.
Com o artifício da palavra, o gênero humano consegue denominar tudo o que os seus sentidos lhe mostram, atribuindo, inclusive, sexo a vegetais, animais, objetos inanimados ou fenômenos naturais. Para o homem, o mundo se divide em masculino e feminino.
Assim sendo, existem ossos masculinos como o fêmur, o rádio e o crânio, mas também femininos, como a tíbia, as falanges e a mandíbula.
Existem árvores com sexo masculino, como o Baobá, o Cedro e o Pinheiro. Por outro lado, há também as femininas como a Canela, a Imbuia e a Araucária.
Há animais com nomes masculinos como o Morcego, o Gambá e o Tamanduá, mas existem também os com denominações femininas como a Onça, a Capivara e a Cobra.
Mas quem decidiu que uma determinada árvore teria nome masculino e outra, nome feminino? A árvore, em gênero, tem sexo? E os ossos? E as espécies animais? Por que tudo no mundo deve ser macho ou fêmea?
É possível que a linguagem seja dividida nessa matriz dual, porque replica nos objetos e demais seres, aquilo que caracteriza e divide a humanidade, enquanto parcela do mundo animal (animus e anima).
Mas em alguns casos, uma palavra masculina não encontra liame sexual adequado com o objeto designado, como por exemplo a palavra “calor” que, na língua portuguesa é escrita no masculino, mas, segundo a sensibilidade do poeta, deveria ter sido designada no feminino.
Ora, calor é mulher, é acolhimento, é amparo, colo, é a sensação primordial que acompanha o ser humano antes mesmo de nascer no frio masculino deste planeta, tanto que no francês, “calor”, é feminino (la chaleur) e, se é necessário dar sexo a todo o mundo sensível, no caso do calor, ele deveria ser ela.
Já no caso da “água” houve acerto na atribuição de sexo, pois a água é toda feminina, líquida, mutante e imprecisa. Henri Bosco demonstrou o aspecto feminino da água em um mergulho no lago:
“Somente ali eu conseguia às vezes libertar-me do mais negro de mim mesmo, esquecer-me. Meu vazio interior se preenchia…A fluidez do meu pensamento, onde até então eu tentara encontrar a mim mesmo, parecia-me mais natural e assim menos amarga. Por vezes eu tinha a sensação, quase física, de um outro mundo subjacente e cuja matéria tépida e móvel, aflorava sobre a extensão melancólica de minha consciência. E então, como a água límpida das lagoas, ela estremecia.”
Da mesma forma, acertou quem chamou “maçã” de mulher. Nos seus “Sonetos a Orfeu”, Rilke trata do assunto:
“Ousai dizer o que chamais de Maçã.
Essa doçura que primeiro se condensa
Para, com uma doçura erigida no gosto,
Chegar à claridade, ao despertar, à transparência,
Tornar-se uma coisa daqui, que significa o sol e a terra.”
Ao que parece, assim como ocorre com os transgêneros humanos, que não possuem o corpo adequado à sua psique, também parte dos elementos do mundo sensível recebeu designações que não guardam consonância com a sua essência ontológica e, principalmente, poética.
Inútil nadar contra a correnteza digital em alguns casos. Devido a essa conclusão resolvi aderir ao Facebook. Mais que uma página de relacionamento pessoal o site assume outra roupagem e se transforma em uma excelente vitrine profissional para divulgar o trabalho, fazer contatos e se mostrar. Isso eu curto! O problema é que estes utensílios digitais, tais como msn, Iphone, twitter, estão anestesiando as pessoas de uma forma permanente, jogando-as num sono tecnológico profundo. Alguns exemplos práticos: uma amiga disse estar constrangida por só ter 58 amigos no Facebook e que gostaria de ser que nem estes que tem mais de 1000. Outra já comemorava porque havia passado dos 500 amigos. Fiquei pasma entre as duas sem saber o que dizer. Isso eu não curto!
Em se tratando de twitter as frases inúteis não cessam, vão desde o sujeito postar informando que acabou de acordar e o quarto tá todo bagunçado até a garota que não sabe que cor pinta as unhas para a balada de sexta a noite. Outro dia navegando e me divertindo com os twitteiros sem noção encontro até um garoto fazendo piadas com textos de Clarice Lispector. Tem como curtir? Não, claro.
Podemos conversar no msn? Minha resposta é geralmente não, a menos que não exista no mundo nenhuma outra opção. Perdoem-me a intolerância messangeânica caros leitores, mas ficar digitando vc, pq e tc enquanto a telinha pisca com o tutu como som de fundo é demais para quem adora a conversa do olho no olho, do sorriso, de ouvir a voz do outro, do contato humano. Isso eu curto!
Ter um milhão de amigos, twittar o dia inteiro, teclar sem parar, ver a vida passar através da tela do computador são alguns dos sintomas das vítimas do holocausto digital. O holocausto ganha vida quando o pensamento, em vez de ser construído através das opções e vivências individuais de cada um, é imposto às multidões que querem fazer parte daquilo que todo mundo está seguindo, daquilo que todo mundo está fazendo, independente do que isso possa parecer. É tudo muito divertido, novo, atraente e até necessário, principalmente quando envolve trabalho, mas quem deve erguer a placa vermelha avisando “Perigo” quando algo está fora dos limites da normalidade (dentro da era digital), que antes existia, é cada um de nós. O bom senso ajuda muito nestas horas. Curtir ou não curtir, com o dedinho para cima ou para baixo, eis uma questão pessoal e intransferível!